O fôlego e o Nome: o sopro de Deus, do Éden a Pentecostes
por Tiago França
Em resumo
O nome de Deus não é o som da sua respiração: a ideia é bonita, mas é recente e não se sustenta nem no hebraico nem na Bíblia. O que a Escritura diz é maior — o sopro que fez viver o homem de barro ecoa no vale dos ossos, no sopro de Jesus e no som de Pentecostes. E o seu fôlego tem destino: "Tudo quanto tem fôlego louve ao SENHOR".
Uma ideia bonita demais
Respira fundo. Segura um segundo. Agora solta.
Corre no meio cristão uma ideia que diz que você acabou de pronunciar o nome de Deus. As quatro letras do Nome, ditas sem vogal nenhuma, seriam o próprio som do ar entrando e saindo: "YH" quando você inspira, "WH" quando você expira.
Faz a conta comigo. Um adulto em repouso respira de 12 a 16 vezes por minuto, e o dia tem 1.440 minutos. Dá, em ordem de grandeza, entre 17 mil e 23 mil respirações por dia. Se a ideia estivesse certa, seriam milhares de vezes o nome de Deus na sua boca, todo dia. Sem você perceber.
É bonita. Bonita o bastante para eu querer que fosse verdade.
Não é.
E eu vou te mostrar por quê — mas não para te deixar de mãos vazias. O que a Bíblia diz de fato sobre o sopro de Deus é maior do que essa ideia. Começa num boneco de barro, passa por um vale cheio de ossos e chega a uma casa em Jerusalém tomada por um som que veio do céu.
Primeiro, o Nome.
O Nome de quatro letras
O nome de Deus que está no centro dessa história se escreve com quatro letras hebraicas: yod, he, waw, he. Em letras nossas, YHWH.
O hebraico da Bíblia era escrito sem sinais de vogal. Algumas letras — entre elas justamente o yod, o he e o waw — ajudavam a indicar vogais, mas só em parte. Os sinais de vogal vieram depois, com os massoretas.
Pensa num bilhete escrito só com consoantes: "ml". É mel? Mil? Mal? Quem escreveu sabia. Quem lê precisa já conhecer a palavra.
Com o Nome aconteceu uma coisa a mais: ele deixou de ser dito em voz alta. Não porque fosse impossível de pronunciar, mas por reverência — e aos poucos. No século I, autores como Fílon e Josefo já tratam o Nome com restrição. Nos registros da tradição judaica, a regra ficou assim: no Templo, dizia-se o Nome; fora dele, lia-se Adonai, "Senhor".
Segundo Berkhof, os judeus deixaram de pronunciá-lo porque liam este verso — que na ACF fala em "blasfemar" o nome — como proibição de simplesmente dizê-lo:
E aquele que blasfemar o nome do SENHOR, certamente morrerá; toda a congregação certamente o apedrejará; assim o estrangeiro como o natural, blasfemando o nome do SENHOR, será morto.
— Levítico 24.16
Imagina uma família em que um nome é tão respeitado que todo mundo combina de não dizê-lo em voz alta. Passam as gerações. A assinatura continua lá, em cada documento. Mas quem ainda lembra como aquilo soava? Berkhof resume: a pronúncia original está "mais ou menos perdida na obscuridade".
O Nome é inefável — quer dizer, não se deve dizer. Não é impronunciável, como se não pudesse ser dito.
Yahweh e Jeová
"Yahweh" é a reconstrução aceita pela grande maioria dos especialistas em hebraico. Reconstrução séria, com base firme — mas reconstrução. Como o esqueleto de dinossauro no museu: os ossos são de verdade; a montagem é trabalho de especialista.
E "Jeová"? Aqui tem uma história curiosa. Os massoretas mantiveram as consoantes do Nome e escreveram nelas as vogais de Adonai — um lembrete para quem lia: "aqui, diga Adonai". "Jeová" nasce de ler as duas coisas juntas, as consoantes de um e as vogais do outro. É uma forma híbrida. Aparece no século XIII e se espalha no século XVI.
É como um post-it colado numa palavra dizendo "leia assim" — e alguém, muito tempo depois, lendo a palavra e o post-it como se fossem uma coisa só.
Então não: "Jeová" não foi uma tentativa humana de pôr limites em Deus. Foi um lembrete de leitura que acabou lido ao pé da letra.
O que o Nome quer dizer
O próprio Êxodo liga o Nome ao verbo "ser". Moisés pergunta o que responder quando lhe perguntarem o nome de quem o enviou, e ouve isto:
E disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós.
E Deus disse mais a Moisés: Assim dirás aos filhos de Israel: O SENHOR Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó, me enviou a vós; este é meu nome eternamente, e este é meu memorial de geração em geração.
— Êxodo 3.14-15
Berkhof lê o Nome como a fidelidade de Deus à aliança. Dá para sentir isso no verso 15: quem se apresenta a Moisés é o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó.
O Nome não é um som que se faz. É uma assinatura embaixo de uma promessa.
E é justamente nesse vazio de vogais que a ideia da respiração se instala.
Por que a leitura da respiração não para em pé
Vamos olhar a ideia de frente. Ela tem três problemas: um de som, um de origem e um de teologia. O terceiro é o que mais pesa.
O som
O texto que circula diz que as quatro letras são "consoantes aspiradas", sons soprados. Não são.
Das quatro, só o he é um som soprado — aquele "hhh" que você faz para embaçar o vidro com o hálito. O yod e o waw são outra coisa: o yod se faz com a língua no céu da boca; o waw, com os lábios. Até uma obra judaica antiga, o Sefer Yetsirá, põe o waw entre as letras dos lábios e o yod entre as do céu da boca.
E "aspirada", nas gramáticas, é nome de consoantes como o k, o p e o t. Nunca do yod ou do waw.
Tem mais. Tenta dizer "bom dia" puxando o ar. Sai estranho, não sai? A fala humana é feita, praticamente sempre, com o ar saindo. Falar puxando o ar é raríssimo e, quando aparece, costuma servir de marcador de conversa, não de som que forma palavra. Então "YH ao inspirar" não descreve como se pronuncia o hebraico.
E a divisão é arbitrária: um dos próprios divulgadores da prática ensina a ordem invertida — inspirar "Weh", expirar "Yah".
Existe, sim, um grão de verdade no meio disso tudo. Essas letras ajudavam a indicar vogais, e Josefo, no século I, chegou a chamar as letras sagradas de "quatro vogais". Mas letra que indica vogal não é som de respiração.
A origem
A ideia costuma vir com um selo: "rabinos antigos já diziam isso". Não diziam. Nenhuma fonte rabínica antiga ou medieval diz que o Nome é o som da respiração.
O registro mais antigo que se encontrou é recente: autores judeus do fim do século XX. No meio cristão, ela se espalhou com um vídeo de Rob Bell chamado Breathe — que a atribui a "rabinos antigos" sem citar fonte, e a formula como pergunta — e depois com Richard Rohr. A expressão "consoantes aspiradas" aparece num ensaio do músico Jason Gray.
É uma leitura devocional e moderna. Não é o que o hebraico diz, nem o que os rabinos antigos ensinaram.
O curioso é que existe, sim, um texto judeu antigo que põe respiração e louvor a Deus na mesma frase. Ele diz outra coisa — e é melhor. Eu guardo para o fim.
O problema de verdade
Agora o ponto que mais pesa. Mesmo se o som batesse — e não bate —, a ideia teria um problema teológico sério.
Ela diz que todo mundo que respira está dizendo o nome de Deus. O ateu, o budista, quem nunca abriu uma Bíblia. Invocar Deus viraria coisa automática, como o coração que bate sozinho.
Só que a Bíblia não trata o nome de Deus assim. Invocar o Nome é coisa de quem crê:
Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.
Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue?
— Romanos 10.13-14
O texto não diz "todo aquele que respirar". Diz "todo aquele que invocar" — e logo pergunta como alguém invoca aquele em quem não crê.
Seu coração bate o dia inteiro, e nem por isso está dizendo "eu te amo" a alguém. Amor dito é outra coisa.
Respirar não é invocar. Respirar é estar vivo. Invocar é chamar, de propósito, por alguém em quem você confia.
O nome técnico para o que a leitura da respiração faz é eisegese: pôr dentro do texto um sentido que a gente já trazia. É como olhar para uma nuvem e ver um coelho. O coelho é seu, não da nuvem.
Mas — e aqui está o que salva a conversa — a ideia tropeça numa verdade. O seu fôlego depende de Deus, e depende agora. A Bíblia diz isso com todas as letras:
Nem tampouco é servido por mãos de homens, como que necessitando de alguma coisa; pois ele mesmo é quem dá a todos a vida, e a respiração, e todas as coisas;
— Atos 17.25
Se ele pusesse o seu coração contra o homem, e recolhesse para si o seu espírito e o seu fôlego,
Toda a carne juntamente expiraria, e o homem voltaria para o pó.
— Jó 34.14-15
Então a pergunta certa não é "o meu fôlego diz o nome de Deus?". É outra: o que a Bíblia diz desse fôlego que não é meu? E ela tem uma palavra para isso.
Uma palavra que é vento, fôlego e espírito
A palavra é ruach. Os dicionários de hebraico dão a ela três sentidos principais — fôlego, vento e espírito — e ainda ânimo, disposição, a sede das emoções e o Espírito de Deus.
Pensa na palavra "ar" em português. É o que venta lá fora. É o que falta quando você sobe a escada correndo. E é o jeito de uma pessoa: "ele chegou com um ar cansado". Uma palavra só, e ninguém se confunde — porque quem decide o sentido é a frase.
Com ruach é igual.
Ela tem uma vizinha, neshamah, de campo mais estreito: quer dizer "fôlego", sem o sentido de vento lá fora.
No grego do Novo Testamento, a palavra de sentidos parecidos é pneuma: vento, fôlego, espírito, o Espírito de Deus. Berkhof lembra que ruach e pneuma, como o latim spiritus, vêm de raízes que significam "respirar".
Agora um freio, porque ele vale para o resto do caminho: nem todo ruach do Antigo Testamento é o Espírito Santo em pessoa. Berkhof avisa que, ali, "Espírito de Deus" nem sempre denota a terceira pessoa da Trindade; muitas vezes designa o poder de vida que vem de Deus. Como no "ar", é a frase que decide.
Com isso em mãos, dá para ir ao começo de tudo.
O boneco de barro
Qualquer criança que já brincou com massinha sabe fazer um boneco. Nenhuma sabe fazer o boneco respirar.
E formou o SENHOR Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente.
— Gênesis 2.7
Repara na ordem. Primeiro o pó ganha forma. Depois vem o sopro. Só então "o homem foi feito alma vivente".
E aqui vai uma correção importante: a palavra desse "fôlego" não é ruach. É neshamah. E o verbo "soprou" vai voltar mais adiante — guarda ele.
A ligação entre o fôlego do Éden e o Espírito, então, não sai da palavra de Gênesis 2.7. Ela existe, mas quem a faz é a própria Escritura, em outro lugar. No livro de Jó, as duas palavras aparecem lado a lado:
O Espírito de Deus me fez; e a inspiração do Todo-Poderoso me deu vida.
— Jó 33.4
"Espírito", ali, é ruach. "Inspiração" é neshamah. A Bíblia põe as duas em paralelo, uma ecoando a outra.
O sopro não é um pedaço de Deus
Calvino, nas Institutas, combate quem lia Gênesis 2.7 como se a alma fosse uma porção da substância de Deus passada para o homem. A resposta dele, em tradução livre: "a criação não é transfusão de essência, mas começo dela a partir do nada". Deus não doou um pouco de si ao barro, como quem doa sangue. Ele deu vida a algo que não era ele.
Um sopro, lá no começo. E depois? O fôlego fica com a gente, como coisa nossa?
O fôlego emprestado
Faz um teste: prende a respiração. Quanto tempo você aguenta? Pouco. O corpo inteiro reclama. Você não guarda o seu ar. Recebe de novo, a cada poucos segundos.
O Salmo 104 diz isso das criaturas de Deus:
Escondes o teu rosto, e ficam perturbados; se lhes tiras o fôlego, morrem, e voltam para o seu pó.
Envias o teu Espírito, e são criados, e assim renovas a face da terra.
— Salmo 104.29-30
Agora repara num detalhe que, para mim, é o coração desse trecho. O "fôlego" do verso 29 e o "Espírito" do verso 30 são a mesma palavra hebraica: ruach. Muda só um pedacinho no fim. No verso 29, é o ruach "deles". No verso 30, o ruach "teu".
O ar que te mantém vivo tem o mesmo nome do Espírito que Deus envia. O seu fôlego não é seu. É emprestado — e o dono pode pedir de volta.
Que é o Espírito de Deus quem dá e renova a vida, tanto a teologia reformada quanto a pentecostal afirmam: Berkhof põe o verso 30 entre as obras divinas do Espírito Santo, e o manual Foundations of Pentecostal Theology, de Duffield e Van Cleave, da escola bíblica da Foursquare, lê ali o Espírito como quem cria a vida.
Mas cuidado com o salto errado, que é outro: achar que um pedaço de Deus mora dentro de cada criatura. Calvino, comentando esse salmo, diz que o salmista não está dividindo o espírito de Deus em pedaços que morem dentro de cada ser vivo — o mundo "subsiste só por uma virtude secreta vinda de Deus" (tradução livre).
O ponto do salmo é dependência. Você está vivo agora porque Deus está sustentando você agora.
E quando o fôlego já foi embora? Quando não sobra nada além de osso?
O vale dos ossos
Em Ezequiel 37, o profeta é levado a um vale cheio de ossos. Muitos. E secos — "sequíssimos", diz o texto. Aí vem uma pergunta que parece não ter resposta:
E me disse: Filho do homem, porventura viverão estes ossos? E eu disse: Senhor DEUS, tu o sabes.
— Ezequiel 37.3
Deus manda o profeta falar aos ossos, e eles se juntam: um ruído, um rebuliço, "cada osso ao seu osso". Crescem nervos, carne, pele. E então vem a frase que corta:
E olhei, e eis que vieram nervos sobre eles, e cresceu a carne, e estendeu-se a pele sobre eles por cima; mas não havia neles espírito.
— Ezequiel 37.8
Corpos prontos. Parados. É o boneco de barro de novo — só que agora um vale inteiro deles.
E ele me disse: Profetiza ao espírito, profetiza, ó filho do homem, e dize ao espírito: Assim diz o Senhor DEUS: Vem dos quatro ventos, ó espírito, e assopra sobre estes mortos, para que vivam.
— Ezequiel 37.9
Lembra do verbo que eu pedi para você guardar? Esse "assopra" é o mesmo verbo hebraico do "soprou" de Gênesis 2.7. O que Deus fez com um homem de pó, ele manda fazer com um vale de mortos.
E repara no jogo com ruach. Ela aparece dez vezes nesse trecho. A ACF traduz sete vezes por "espírito", duas por "Espírito" e uma por "ventos" — os "quatro ventos" do verso 9. Nenhuma vez por "fôlego". No mesmo verso, a mesma palavra é o vento de onde ele vem e o espírito que vem.
E profetizei como ele me deu ordem; então o espírito entrou neles, e viveram, e se puseram em pé, um exército grande em extremo.
— Ezequiel 37.10
Só que Deus não estava falando de ossos. Ele mesmo explica:
Então me disse: Filho do homem, estes ossos são toda a casa de Israel. Eis que dizem: Os nossos ossos se secaram, e pereceu a nossa esperança; nós mesmos estamos cortados.
— Ezequiel 37.11
Lê de novo o que eles dizem: "pereceu a nossa esperança". Não é um povo cansado. É um povo que já se dá por morto. Osso seco é o que sobra de quem desistiu.
E a resposta de Deus não é "vou dar um jeito na situação de vocês". É esta:
E porei em vós o meu Espírito, e vivereis, e vos porei na vossa terra; e sabereis que eu, o SENHOR, disse isto, e o fiz, diz o SENHOR.
— Ezequiel 37.14
O mesmo ruach que era vento no verso 9, e espírito entrando nos corpos no verso 10, agora Deus chama de "o meu Espírito".
A promessa foi feita a Israel, e é lá que ela mora primeiro. Mas ela revela uma coisa sobre Deus que não muda de endereço: ele é o Deus que dá vida onde não sobrou nenhuma.
No Novo Testamento, Jesus vai usar o vento para explicar outro tipo de vida nova: nascer de novo.
O vento que ninguém vê
Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo.
O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito.
— João 3.7-8
Você nunca viu o vento. Ouviu — o assobio na fresta da janela. Viu o que ele faz — a roupa dançando no varal, a folha rodando no chão. O vento mesmo, ninguém vê.
No grego, "vento" e "Espírito", nesse verso, são a mesma palavra: pneuma. O "assopra" vem da mesma raiz. A "voz", essa sim, é outra palavra: o som que o vento faz.
Calvino entende que Cristo tira ali uma comparação da natureza: "todos tiram do ar o seu fôlego vital; percebemos a agitação do ar, mas não sabemos de onde nos vem nem para onde vai" (tradução livre).
O novo nascimento é assim. Ninguém vê o Espírito trabalhando dentro de alguém. Vê a vida que aparece.
Mas presta atenção numa palavra que escorrega fácil para dentro dessa conversa sobre vento e Espírito: "força".
Vento, sim. Força, não.
Se a mesma palavra é vento e é Espírito, o Espírito seria uma espécie de vento de Deus — uma energia, uma força que move as coisas?
Não. E quem diz não é a própria declaração de fé da Igreja do Evangelho Quadrangular. O "No que cremos" da IEQ fala de "Um Deus que é trino: Pai, Filho e Espírito Santo; os três são coexistentes, eternos e iguais na perfeição divina". E diz do Espírito, com todas as letras: "sendo o Espírito Santo o próprio Deus".
A Declaração de Fé compilada por Aimee Semple McPherson, que a Foursquare publica nos Estados Unidos, usa a imagem do vento — e, na mesma frase, a de alguém que se pode entristecer. Em tradução livre: o Espírito "é como um vento veemente e impetuoso e como línguas de chama viva, que podem sacudir e incendiar comunidades inteiras para Deus", mas é também "como uma pomba mansa, facilmente entristecido e ferido" pela impiedade, pela frieza, pela conversa vã.
Você não magoa o vento. Magoa um amigo.
Berkhof junta as provas. A Escritura atribui ao Espírito inteligência, vontade e afetos — ele pode ser entristecido (Efésios 4.30). Ele fala, testifica, intercede. E a Escritura ainda o distingue do próprio poder dele (Lucas 4.14; Atos 10.38). A conclusão de Berkhof, em tradução livre: "o que faz todas essas coisas não pode ser mero poder ou influência, mas tem de ser uma pessoa".
O vento é a imagem. O Espírito é Alguém.
E é esse Alguém que Jesus manda os discípulos receberem, com um gesto estranho e íntimo: um sopro.
O sopro atrás das portas fechadas
É a tarde do primeiro dia da semana. Os discípulos estão reunidos, de portas fechadas, com medo. Jesus aparece no meio deles, diz "Paz seja convosco" e mostra as mãos e o lado. Depois:
Disse-lhes, pois, Jesus outra vez: Paz seja convosco; assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós.
E, havendo dito isto, assoprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo.
— João 20.21-22
Três coisas sobre esse sopro.
A primeira: o verbo "assoprou", no grego, é emphysáo, e ele aparece uma única vez em todo o Novo Testamento. É esta.
A segunda: no grego, o verbo não tem objeto. Na ACF, o "sobre eles" vem em itálico, que é a marca que ela usa para as palavras que os tradutores acrescentaram. Jesus simplesmente soprou.
A terceira — e é aqui que eu me arrepio: esse verbo, que o Novo Testamento só usa aqui, aparece na Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento, em alguns lugares. E dois deles são justamente Gênesis 2.7, Deus soprando no homem de pó, e Ezequiel 37.9, "assopra sobre estes mortos".
O boneco de barro, o vale dos ossos, as portas fechadas. Em grego, o mesmo verbo nos três. Quem sopra, no Éden, é Deus. Quem sopra, atrás daquelas portas, é Jesus.
Robert Menzies, teólogo pentecostal, lê o gesto assim: "assim como Deus soprou em Adão o fôlego de vida, Jesus agora sopra nos discípulos o Espírito da nova criação" (tradução livre). E, numa nota, liga o verbo também a Ezequiel 37.9. Calvino, por outro caminho, vê no sopro um "símbolo exterior", tirado do modo comum de a Escritura comparar o Espírito ao vento — e que mostra que o Espírito procede de Cristo.
Agora, o que exatamente os discípulos receberam ali? Os intérpretes não concordam, e eu não vou fingir que sim. Menzies vê no sopro o Espírito da nova criação e no Pentecostes uma segunda experiência, distinta. Um documento das Assembleias de Deus dos Estados Unidos registra que "muitos estudiosos" veem em João 20.22 o novo nascimento dos discípulos. Aimee Semple McPherson lê o "Recebei o Espírito Santo" como uma mensagem de poder. Jack Hayford, que presidiu a Foursquare, lê a cena como envio e capacitação para a missão.
Mas, leia como ler, o sopro de João 20 não encerra a história.
O som que veio do céu
Em Lucas e em Atos, Jesus não diz "pronto". Diz "esperem":
E eis que sobre vós envio a promessa de meu Pai; ficai, porém, na cidade de Jerusalém, até que do alto sejais revestidos de poder.
— Lucas 24.49
Em Atos, a mesma ordem: não se ausentar de Jerusalém, esperar "a promessa do Pai". E a explicação: "vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias" (Atos 1.4-5). Depois, para quê:
Mas recebereis o poder do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria, e até aos confins da terra.
— Atos 1.8
É assim que McPherson lê o sopro de João 20: vão ao mundo, "mas antes esperem em Jerusalém, até serem revestidos de poder do alto" (tradução livre).
E então:
E, cumprindo-se o dia de Pentecostes, estavam todos concordemente no mesmo lugar;
E de repente veio do céu um som, como de um vento veemente e impetuoso, e encheu toda a casa em que estavam assentados.
E foram vistas por eles línguas repartidas, como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles.
E todos foram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem.
— Atos 2.1-4
Repara: o texto não diz que o Espírito chegou "como um vento". Diz que veio do céu "um som, como de um vento".
E a palavra desse "vento" não é pneuma. É pnoé — a palavra que a Septuaginta usa para o "fôlego" de Gênesis 2.7. No Novo Testamento inteiro, pnoé aparece só duas vezes: aqui e em Atos 17.25, "ele mesmo é quem dá a todos a vida, e a respiração". Nesse relato, pneuma só entra no verso 4: "todos foram cheios do Espírito Santo".
O "fôlego" do Éden, o "vento" de Pentecostes e a "respiração" que Deus dá a todos: na Bíblia em grego, uma palavra só.
Onde eu assino
Aqui eu não vou terminar em empate.
Sobre o batismo no Espírito Santo, eu creio com a Igreja do Evangelho Quadrangular, que declara no seu "No que cremos":
"Cremos que o batismo no Espírito Santo é o recebimento do prometido Consolador. Ele concede autoridade aos cristãos para exaltarem Jesus, viverem uma vida de santidade e para serem testemunhas da salvação pela graça de Deus. Cremos também que a atuação do Espírito Santo ocorre da mesma maneira que ocorria sobre os cristãos da igreja primitiva (Atos, 1:5,8; 2:4)."
Isso não quer dizer que o cristão viva sem o Espírito até lá. Na conversão, segundo a IEQ, o crente passa a "ter recebido a Cristo e o Seu Espírito Santo". O batismo no Espírito é outra coisa: é revestimento de poder. A Declaração de McPherson o descreve como "a vinda do Consolador prometido, em plenitude poderosa e gloriosa, para revestir o crente de poder do alto" (tradução livre).
A declaração deixa essa distinção implícita. O material de ensino diz com todas as letras: no mesmo manual de Duffield e Van Cleave, o batismo no Espírito é "subsequente e distinto" da obra regeneradora — a do novo nascimento —, e o propósito principal dele é "poder para o serviço cristão" (tradução livre).
Pensa num barco. Ele pode ser seu, estar inteiro, flutuando no porto — barco de verdade. E ainda assim esperar o vento que enche a vela para a viagem.
E creio que isso continua acontecendo. A Declaração da Foursquare diz que o crente tem "toda razão para esperar" que essa vinda aconteça "da mesma maneira" que nos dias da Bíblia (tradução livre).
Nem todo cristão lê assim, e você merece saber quem está do outro lado. James D. G. Dunn, em Baptism in the Holy Spirit, defende que receber o Espírito é o que faz alguém cristão — e que não há dois estágios.
Eu fico com a Quadrangular por causa do próprio texto: o mesmo Jesus que soprou atrás das portas fechadas mandou esperar pelo poder, prometeu o batismo com o Espírito "não muito depois destes dias" e disse para que ele servia — "ser-me-eis testemunhas".
E o seu fôlego de todo dia, esse que você respira sem pensar? Onde ele fica nessa história?
Para que serve o seu fôlego
Lembra que eu disse que existe um texto judeu antigo que põe respiração e louvor a Deus na mesma frase? Está no Bereshit Rabá, uma obra da tradição judaica antiga. Lendo o último verso dos Salmos, ele ensina: "a cada respiração que o homem respira, deve louvar o Criador".
Repara na diferença. Ele não diz que respirar é dizer o Nome. Diz que cada respiração deve louvar. Respirar é motivo de louvor.
E o verso que ele está lendo é este:
Tudo quanto tem fôlego louve ao SENHOR. Louvai ao SENHOR.
— Salmo 150.6
No hebraico, esse "fôlego" é neshamah — a mesma palavra do fôlego do Éden. O "SENHOR", nas duas vezes, é Yah, a forma curta do Nome. E "Louvai ao SENHOR" é, no hebraico, hallelu Yah.
Você conhece essa expressão. Quem diz "aleluia" diz, de fato, a forma curta do Nome — como louvor.
Então está aí a virada, e ela é melhor do que a ideia com que a gente começou: o seu fôlego não pronuncia o Nome sozinho. Ele foi dado para que você louve o Nome.
Cada respiração é dom — "ele mesmo é quem dá a todos a vida, e a respiração" (Atos 17.25). E é dependência: "Toda a carne juntamente expiraria", diz o livro de Jó, se Deus recolhesse para si o fôlego (Jó 34.14-15). O que ela não é, é oração automática. Falta a sua voz, de propósito, chamando pelo nome de quem te dá o ar.
"Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo" (Romanos 10.13). Não todo aquele que respirar. Todo aquele que invocar.
Respira fundo mais uma vez. Agora usa esse ar para alguma coisa.
Perguntas de reflexão
- Se a ideia de que respirar é dizer o nome de Deus já te encantou, o que nela te atraiu? O que muda quando o louvor deixa de ser automático e passa a ser escolha?
- O Salmo 104 diz que, quando Deus tira o fôlego, a criatura morre e volta ao pó. Como seria passar um dia inteiro lembrando que o seu ar é emprestado — não com medo, mas com gratidão?
- Israel dizia "pereceu a nossa esperança" (Ezequiel 37.11), e Deus respondeu "porei em vós o meu Espírito". O que essa resposta te diz sobre o jeito de Deus agir quando alguém já se deu por vencido?
- Jesus mandou os discípulos esperarem o poder antes de sair para testemunhar (Lucas 24.49; Atos 1.8). Em que parte da sua vida você tem tentado testemunhar só com a própria força?