Teologia SistemáticaIntermediário

Ouvido não é atendido: o que de fato trava uma oração

por Tiago França

Em resumo

Houve uma noite em que alguém orou com lágrimas e não recebeu o que pediu — e a Bíblia diz que ele foi ouvido. Ser ouvido e ganhar o pedido não são a mesma coisa, e confundir as duas é o que faz a gente procurar culpa onde não há. A Escritura fala, sim, de coisas que travam a oração: só que nenhuma delas é uma técnica que faltou. São o pecado que a gente acaricia, a mágoa que a gente guarda, o ouvido que a gente fecha e o pedido que só serve a mim.

Uma oração que não foi atendida

Você já orou por uma coisa com tudo o que tinha dentro, e não aconteceu.

Eu também. E o que vem depois costuma ser pior que o não: é a vasculhada. O que faltou em mim? Fé? Jejum? Alguma palavra certa que eu não soube dizer? Tem gente que vai te dizer que sim, que faltou. E a partir daí você passa a orar olhando para dentro, procurando o defeito que travou o pedido.

Antes de a gente chegar nessa busca, eu preciso te contar de uma noite.

Um homem ajoelhado, de madrugada, num terreno de oliveiras. Ele pede uma coisa só. Pede três vezes. Suor, angústia, os amigos dormindo a alguns metros dali. E o que ele pediu não aconteceu.

O homem era Jesus.

E o Novo Testamento, comentando exatamente essa cena, diz o seguinte:

O qual, nos dias da sua carne, oferecendo, com grande clamor e lágrimas, orações e súplicas ao que o podia livrar da morte, foi ouvido quanto ao que temia.

Hebreus 5.7. Foi ouvido. Ele não recebeu o que pediu, e o texto diz que foi ouvido.

Isso não é um detalhe bonito para consolar ninguém. É a chave de tudo o que vem a seguir, e boa parte da confusão que a gente carrega sobre oração nasce de não fazer essa distinção. Então vamos ficar aqui um pouco.

Ser ouvido e ganhar o pedido são duas coisas

Olha a oração do Getsêmani inteira, e não só a primeira metade:

Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres.

Tem uma vírgula ali que muda tudo. Antes dela, um pedido. Depois dela, outro. E na segunda vez ele é ainda mais direto:

Pai meu, se este cálice não pode passar de mim sem eu o beber, faça-se a tua vontade.

O primeiro pedido não foi concedido. O segundo foi cumprido à risca — e o segundo é justamente o que ele escolheu pedir quando ficou claro que os dois não cabiam juntos.

Quem diz "Jesus orou e não foi atendido" está cortando a oração na vírgula.

Agora olha o mesmo padrão num homem comum. Paulo tinha uma coisa na carne que o machucava, e conta assim:

Acerca do qual três vezes orei ao Senhor para que se desviasse de mim. E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza.

Três vezes — o mesmo número do Getsêmani, e os comentaristas antigos já tinham reparado nisso. O espinho ficou. Mas presta atenção no verbo que abre o versículo 9: "disse-me". Deus não ficou calado. Deus respondeu. A resposta é que não foi o pedido.

É a diferença entre bater na porta e ninguém atender, e bater na porta, a pessoa abrir, olhar na sua cara e dizer não. As duas terminam com a porta fechada. Só que uma delas é abandono, e a outra é conversa.

O que isso derruba, e o que não derruba

Isso não significa que Deus não concede pedidos. Ele concede, e a Bíblia está cheia disso. O que cai é a equação "não recebi, logo alguma coisa em mim travou" — porque o caso mais extremo de oração não concedida em toda a Escritura é a de alguém sem pecado nenhum. Se a falha fosse sempre de quem ora, o Getsêmani seria inexplicável.

Dito isso: a Escritura também fala de coisas que atrapalham a oração. Não são poucas e não são vagas. Só que nenhuma delas é uma técnica que faltou. Todas têm a ver com o que está acontecendo entre você e Deus, e entre você e gente.

São quatro, e elas incomodam na ordem inversa da que a gente gostaria.

A primeira: o pecado que você acaricia

O texto mais citado sobre isso é este:

Se eu atender à iniquidade no meu coração, o Senhor não me ouvirá.

Salmo 66.18. E aqui tem uma palavrinha que faz uma diferença enorme, que é "atender".

O verbo hebraico não quer dizer ter pecado. Quer dizer mirar nele, ter em vista, guardar com apreço. Os comentaristas clássicos traduzem de maneiras diferentes e todas na mesma direção: acalentar, nutrir, ter prazer, olhar para aquilo com aprovação. Keil e Delitzsch, que são dos mais secos, glosam como ter aquilo no próprio olho.

Pensa numa gaveta. Não é a gaveta que tem coisa errada dentro — todas as gavetas têm. É a gaveta que você abre de vez em quando só para olhar, porque você gosta do que está ali e não pretende jogar fora.

Isso muda completamente quem deveria estar preocupado. Se você está lendo essa frase com aperto no peito por causa de um pecado que te incomoda, que você quer largar e não consegue — Matthew Henry já dizia, faz séculos, que esse aperto é sinal de sinceridade, não de rejeição. Quem acaricia o pecado normalmente não perde o sono com versículo nenhum.

Isaías diz a mesma coisa com outra imagem, e começa negando aquilo que você provavelmente teme:

Eis que a mão do SENHOR não está encolhida, para que não possa salvar; nem agravado o seu ouvido, para não poder ouvir. Mas as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus.

O braço não encolheu, o ouvido não ficou surdo. O que existe é um muro. E o muro tem endereço.

Só que essa palavra — iniquidade — foi sequestrada, e eu não consigo seguir adiante sem falar disso.

A palavra que virou outra coisa

Talvez você já tenha ouvido que pecado e iniquidade são coisas diferentes, organizadas em degraus: pecado seria o erro, transgressão seria o erro repetido, e iniquidade seria o pecado que virou herança de família, que passa de pai para filho e precisa ser quebrado.

Eu já ouvi. Você provavelmente também. E não se sustenta.

Vamos pelas palavras, porque é aí que a coisa se decide.

Pecado, em hebraico, vem de um verbo que significa literalmente errar o alvo. Dá para enxergar isso num lugar improvável: Juízes 20.16 descreve setecentos canhotos de Benjamim que atiravam com a funda "uma pedra em um cabelo, e não erravam". O verbo ali é o mesmo verbo de pecar. Um fundeiro que erra o fio de cabelo e um homem que peca estão, em hebraico, fazendo a mesma coisa: mirando e não acertando.

Iniquidade vem de outro verbo, que significa torcer, entortar, distorcer. O léxico padrão do hebraico bíblico dá três sentidos para esse substantivo — a distorção em si, a culpa que ela gera, e a consequência que ela traz. Nenhum dos três tem qualquer coisa de familiar ou hereditário.

Transgressão vem de um terceiro verbo, que significa revoltar-se. É a palavra que a Bíblia usa quando um reino se rebela contra outro.

Errar o alvo, torcer, revoltar-se. É essa a diferença entre as três. E a distinção mais antiga que existe registrada — no Talmude — separa as três por intenção: o involuntário, o deliberado, e o desafio aberto. Não por transmissão.

Três coisas que você pode conferir sozinho

1. Ezequiel 18.20 diz: "o filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai levará a iniquidade do filho". É a mesma palavra de Êxodo 20.5. Se ela já significasse "pecado transmitido pela família", o versículo estaria dizendo "o filho não levará o pecado-transmitido-pela-família do pai" — uma frase que não quer dizer nada.

2. A Septuaginta, tradução grega feita por judeus antes de Cristo, verte a mesma frase hebraica de duas maneiras: com a palavra "pecados" em Êxodo 20.5, e com "iniquidades" em Êxodo 34.7. Os tradutores antigos não viam ali um termo técnico à parte.

3. Em português, na sua Bíblia: 1 João 3.4 diz que "o pecado é a transgressão da lei". A palavra grega traduzida ali por "transgressão da lei" é exatamente a mesma que Mateus 7.23 traduz por "iniquidade". A pirâmide não sobrevive à tradução que você tem em casa.

Mas o argumento mais forte não é de dicionário. É o que Deus faz com esse assunto em Ezequiel 18.

Havia um ditado circulando em Israel: "os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos se embotaram". Traduzindo: a culpa é da geração passada, nós estamos pagando por eles. E Deus responde proibindo o ditado — "nunca mais direis este provérbio em Israel" —, e emenda: "a alma que pecar, essa morrerá".

Jeremias diz a mesma coisa com a mesma imagem das uvas verdes. E repara na palavra que ele escolhe: "cada um morrerá pela sua iniquidade". A palavra está lá — e o que ela carrega não é "do pai". É "sua".

"Mas e Êxodo 20.5, que fala de visitar a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e a quarta geração?"

O versículo termina com uma condição que quase nunca é lida junto: "daqueles que me odeiam". E essa cláusula, gramaticalmente, não se prende só aos pais — ela alcança as gerações que estão sendo descritas. Quem continua na linha do pai colhe o que a linha do pai colhe; quem sai dela, sai. É assim que um professor pentecostal, escrevendo numa revista de ministério, resume a coisa: o juízo cai sobre os descendentes que escolheram seguir os modelos rebeldes que tinham em casa — e por isso não somos responsáveis pelos pecados dos nossos antepassados, nem estamos condenados a repeti-los.

Preciso ser honesto num ponto: essa leitura não é unânime. Há comentaristas clássicos que acham que ela esvazia a força da ameaça, e preferem dizer que a visitação atinge todos, mas em desvantagens desta vida, não no juízo final. A discussão é antiga e séria, e eu não vou fingir que ela está encerrada.

O que não está em disputa é justamente o que interessa aqui: nenhuma dessas leituras produz uma maldição que precise ser quebrada por um procedimento. E o mesmo professor foi categórico ao escrever que a expressão maldição geracional simplesmente não aparece na Escritura.

O problema dessa doutrina não é ser esquisita. É o que ela faz com a cruz.

Se existe uma categoria de mal que me alcança pelo sangue e que o perdão de Cristo não alcança sem um passo extra, então o evangelho virou Jesus mais alguma coisa. Um teólogo africano que estudou o assunto a fundo formulou assim: ensinar que o cristão continua vítima de maldições herdadas é dizer que existem pecados que a morte de Cristo não foi suficiente para resolver.

E tem um efeito colateral que eu vejo de perto, na vida de gente que eu amo: a doutrina desloca a responsabilidade. Enquanto o problema é o bisavô, ele não é meu. Que é exatamente o uso que Israel estava fazendo das uvas verdes.

Volta comigo para a lista. Segunda coisa.

A segunda: a mágoa que você guarda

Essa é curta porque o texto é curto.

E, quando estiverdes orando, perdoai, se tendes alguma coisa contra alguém, para que vosso Pai, que está nos céus, vos perdoe as vossas ofensas.

Marcos 11.25. Jesus põe o perdão dentro do ato de orar — não antes, não depois: dentro. E em Mateus 6, logo na sequência do Pai-Nosso, ele repete nas duas direções: se perdoardes, sereis perdoados; se não perdoardes, não sereis.

Não é que Deus fique ofendido com a sua mágoa e se recuse a atender por birra. É que o perdão que você está pedindo e o perdão que você está negando são feitos da mesma matéria. Pedir um enquanto segura o outro é como pedir água de mão fechada.

Aqui eu não tenho muito o que explicar. Você sabe o nome da pessoa. É só isso.

A terceira: o ouvido que você fecha

Essa tem duas metades, e a segunda me pegou de jeito quando eu estava estudando.

A primeira metade é o ouvido fechado para Deus.

O que desvia os seus ouvidos de ouvir a lei, até a sua oração será abominável.

Provérbios 28.9. Mas o texto mais brutal sobre isso não é esse — é Zacarias, descrevendo um povo que endureceu:

ensurdeceram os seus ouvidos, para que não ouvissem... E aconteceu que, assim como ele clamou e eles não ouviram, também eles clamaram, e eu não ouvi, diz o SENHOR dos Exércitos.

Está tudo na mesma frase: eles não ouviram, depois clamaram, e não foram ouvidos. Não é castigo arbitrário — é simetria. A relação tem duas pontas, e uma delas foi desligada primeiro.

A segunda metade é o ouvido fechado para gente.

O que tapa o seu ouvido ao clamor do pobre, ele mesmo também clamará e não será ouvido.

Provérbios 21.13. Repara que o versículo usa o mesmo verbo nos dois lados: ouvido tapado, clamor não ouvido. E Isaías 58 é a versão longa e positiva disso, num capítulo inteiro em que Deus reclama de um jejum que não serve para nada:

Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres abandonados; e, quando vires o nu, o cubras... Então clamarás, e o SENHOR te responderá; gritarás, e ele dirá: Eis-me aqui.

"Então clamarás, e o SENHOR te responderá." A ordem da frase é a coisa toda.

E no Novo Testamento as duas aparecem juntas, quando um oficial romano recebe a visita de um anjo: "as tuas orações e as tuas esmolas têm subido para memória diante de Deus". As duas, no mesmo fôlego.

Eu quero ser preciso aqui, porque esse ponto costuma ser pregado torto. O que esses textos amarram à oração é misericórdia com quem tem fome — pão, teto, roupa, o clamor do pobre. É disso que eles falam, e não de outra coisa. O clássico do assunto, um livro inteiro escrito há mais de um século sobre estorvos à oração, ancora o ponto exatamente onde eu acabei de ancorar: no pobre.

A quarta: o pedido que só serve a você

Pedis, e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites.

Tiago 4.3. E presta muita atenção no que ele condena, porque não é o que a gente costuma ouvir.

Ele não diz "pedis para vós mesmos". Ele diz "pedis mal" — e explica o mal: "para gastardes em vossos deleites". O problema é a finalidade, não o destinatário. Os comentaristas são unânimes: a expressão grega significa pedir com intenção má, de olho no próprio prazer.

Isso importa, porque a versão popular dessa doutrina diz que orar por si mesmo é egoísmo, e que é por isso que a oração não sobe. Se fosse assim, a oração do Getsêmani teria sido egoísta, e a de Paulo pelo espinho também. E João 17 — a oração mais longa de Jesus registrada nos evangelhos — começa com ele pedindo por si mesmo, "glorifica-me tu, ó Pai", antes de passar aos discípulos e depois a todos os que creriam.

Pedir por você não é o problema. Pedir para consumir é.

O que é verdade, e é lindo, é o que acontece quando a oração se abre para fora. O caso mais conhecido é Jó, e vale ler com cuidado:

E o SENHOR virou o cativeiro de Jó, quando orava pelos seus amigos; e o SENHOR acrescentou, em dobro, a tudo quanto Jó antes possuía.

A tradução diz "quando orava", não "porque orava" — o hebraico marca o momento, e comentaristas sérios divergem sobre haver ali uma relação de causa. Mas a cena é inegável: o homem que tinha perdido tudo, e que passou trinta e sete capítulos discutindo com três amigos insuportáveis, é mandado orar por eles. E é ali que a maré vira.

E se você quiser um modelo de como orar pelos outros, João 17 tem um que incomoda. Jesus pede pelos discípulos: que sejam guardados do mal, que sejam santificados na verdade, que sejam um. Ele diz explicitamente que não está pedindo que sejam tirados do mundo.

Compara com a nossa lista, quando oramos uns pelos outros. A diferença de conteúdo é constrangedora.

O atalho que promete pular tudo isso

Agora eu preciso falar de uma coisa que talvez você já tenha ouvido pregada com muita convicção, e que eu mesmo já achei que fosse verdade.

O raciocínio é este: Deus criou o mundo falando; a Bíblia diz que "os mundos pela palavra de Deus foram criados"; logo, se fomos feitos à imagem dele, a nossa palavra também cria — e orar de verdade seria declarar o que ainda não existe, chamando à existência aquilo que não é.

Soa poderoso. E é a espinha dorsal de um ensino com nome e endereço: a confissão positiva. Kenneth Copeland ancora esse argumento em Hebreus 11.3, com essas palavras, num livro de 1974: o mundo teria sido criado pela força da fé, e a fé seria uma força real como a gravidade. Charles Capps, dois anos depois, formula ainda mais direto — a palavra de Deus concebida no coração e falada pela boca é poder criativo, e o homem seria capaz de operar no mesmo nível de fé que Deus.

Vamos abrir os textos que sustentam isso, um por um. São três, e os três dizem outra coisa.

Hebreus 11.3, na íntegra:

Pela fé entendemos que os mundos pela palavra de Deus foram criados; de maneira que aquilo que se vê não foi feito do que é aparente.

O único verbo conjugado dessa frase, o único que tem sujeito humano, é "entendemos". A criação aparece num infinitivo — e num infinitivo passivo, "terem sido formados" — cujo instrumento é a palavra de Deus. Não existe, em canto nenhum do versículo, um ser humano criando coisa alguma. O que o ser humano faz ali é compreender.

E vale lembrar onde esse versículo está: num capítulo que é uma lista de pessoas de fé e que termina, se você ler até o fim, com gente torturada, serrada ao meio e morta à espada. É um capítulo estranho para provar que a fé bem exercida produz circunstâncias agradáveis.

Romanos 4.17 é o texto mais usado, e é o que se decide mais rápido:

...perante aquele no qual creu, a saber, Deus, o qual vivifica os mortos, e chama as coisas que não são como se já fossem.

Quem chama as coisas que não são? A frase em português já responde: "Deus, o qual vivifica... e chama". No grego é ainda mais fechado. "Que vivifica" e "que chama" são dois particípios no caso genitivo, presos por um artigo genitivo ao substantivo "Deus", também genitivo. Abraão, nessa frase, é o sujeito de outro verbo — "creu" —, e um sujeito desses estaria em outro caso. Gramaticalmente, os particípios não têm como se referir a Abraão. E isso vale em todas as edições do texto grego, inclusive no Texto Recebido, que é a base da tradução que você tem na mão.

Abraão, nesse capítulo, é o homem que confia no Deus que faz isso. Ele creu contra a esperança. Ele não declarou Isaque à existência.

João 1.1: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus." O Verbo aqui não é técnica de fala nem princípio espiritual — é uma pessoa, é Cristo. Usar esse texto como modelo para a boca do crente é erro de categoria antes de ser erro de interpretação.

Então declarar nunca é legítimo? É — e a Bíblia tem a cena perfeita para mostrar onde fica a linha.

Ezequiel no vale, e a linha exata

Um profeta é posto no meio de um vale cheio de ossos secos. Deus pergunta se aqueles ossos podem viver, e ele devolve a pergunta: "Senhor DEUS, tu o sabes".

E então:

Então me disse: Profetiza sobre estes ossos, e dize-lhes: Ossos secos, ouvi a palavra do SENHOR. Assim diz o Senhor DEUS a estes ossos: Eis que farei entrar em vós o espírito, e vivereis.

Ezequiel declara. Ele fala com ossos. E funciona: os ossos se movem, ganham nervo, carne e pele, e por fim fôlego, e se põem em pé como um exército. O texto é entusiasticamente a favor de declarar.

Só que olha três coisas, todas dentro do próprio capítulo.

A ordem parte de Deus: "Então me disse: Profetiza". Ezequiel não teve a ideia. O conteúdo é dado: cada fala do profeta vem prefaciada por "Assim diz o Senhor DEUS" — ele não formula a declaração, ele transmite uma. E a fórmula que o capítulo repete é de obediência: "Então profetizei como se me deu ordem", e de novo, no versículo 10, "profetizei como ele me deu ordem".

Aí está a linha inteira, e ela é simples de enunciar: declarar é legítimo quando o conteúdo é palavra que Deus já disse e a iniciativa é dele. Vira outra coisa quando o conteúdo é o desejo do meu coração e a iniciativa é minha.

E repara que "declarar existência sobre o que ainda não existe" cai, necessariamente, do segundo lado — porque aquilo que ainda não existe é, por definição, conteúdo que não foi revelado. Se Deus já disse, aquilo não é o inexistente: é promessa. Se Deus não disse, o que estou declarando é meu.

A própria Bíblia dá o vocabulário certo para isso:

E esta é a confiança que temos nele, que, se pedirmos alguma coisa, segundo a sua vontade, ele nos ouve.

"Pedirmos". "Segundo a sua vontade". "Petições", no versículo seguinte. Nenhum decreto em lugar nenhum.

Até o texto preferido de quem ensina a declaração diz isso, se você ler o versículo de baixo. Marcos 11.23 fala do monte que se lança no mar; o 24 explica o que estava acontecendo ali: "todas as coisas que pedirdes, orando, crede receber". É oração. E o 25, que a gente já viu, condiciona tudo ao perdão.

Não sou eu que estou inventando essa crítica, e ela também não vem de fora. A objeção mais antiga e mais bem formulada que eu encontrei é de 1980, saída de dentro do próprio mundo pentecostal, e traz uma frase que eu não consigo tirar da cabeça: ensinar assim faz parecer que o homem é soberano e Deus é o servo.

O mesmo documento propõe um teste que eu acho honesto, e cruel na medida certa: um ensino verdadeiro precisa valer em qualquer lugar. Ele funciona para o refugiado? Para o cristão preso por causa da fé? Os que foram martirizados eram crentes de segunda categoria, que não souberam declarar direito?

Um capítulo inteiro da Bíblia já respondeu isso — e é o mesmo Hebreus 11 de onde a doutrina tirou o seu texto de prova.

Então o que sobra? Sobra o essencial

Se você chegou até aqui com a sensação de que eu tirei muita coisa, deixa eu te devolver o que fica. É maior.

Sobra a insistência, e ela é mandada. Lucas abre a parábola da viúva anunciando o assunto antes de contá-la: "sobre o dever de orar sempre, e nunca desfalecer". Mas cuidado com a leitura óbvia. A parábola é um argumento por contraste, não por semelhança: se até um juiz corrupto, que não temia a Deus nem respeitava ninguém, acabou fazendo justiça só para se livrar da mulher, quanto mais o Pai. A insistência não existe para vencer a resistência de Deus — o próprio texto fecha dizendo que ele fará justiça depressa, e então desloca a pergunta para o nosso lado: "quando porém vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra?".

Sobra o ritmo. "Orai sem cessar", diz Paulo — e a palavra grega não significa uma oração ininterrupta de vinte e quatro horas. Significa sem intervalos, sem abrir buracos; os léxicos falam de algo tão constante que as pausas se tornam desprezíveis.

E a ilustração exata disso é Daniel. Quando o decreto que o condenava foi assinado, ele subiu, abriu as janelas e orou três vezes, "como também antes costumava fazer". Essa última frase é o ponto inteiro: o decreto não mudou nada. O hábito já existia. Não foi heroísmo de ocasião — foi um ritmo tão firme que uma sentença de morte não conseguiu abrir uma falha nele.

Sobra a expectativa. Um cego em Jericó gritava pelo nome messiânico de Jesus, levava bronca da multidão para calar a boca, e gritava mais alto. Jesus para, manda chamar, e pergunta: "Que queres que te faça?".

Costuma-se pregar esse versículo como lição de pedido específico: seja claro, diga exatamente o que quer. Eu já preguei assim. Mas não é o que os comentaristas leem ali, e o texto aponta para outro lugar — o que se pede daquele homem é que diga na frente de todos qual é a sua necessidade e em quem ele está confiando. E a resposta de Jesus não é "que pedido bem formulado". É "a tua fé te salvou".

E tem um detalhe no mesmo evangelho, poucos versículos antes, que fecha a questão: Jesus faz exatamente a mesma pergunta a Tiago e João. Eles pediram os dois melhores lugares do Reino. Bem específico. E errado.

O critério nunca foi a precisão do pedido. É de quem você está esperando.

Para levar da leitura

Se eu tivesse que resumir tudo numa frase só, seria esta: oração é relação, não é mecanismo. Todo ensino que promete um mecanismo — uma fórmula, uma maldição para quebrar, uma palavra para decretar, um pagamento que destrava — está oferecendo uma alavanca para puxar em Deus. E Deus não tem alavanca.

O que a Escritura aponta como obstáculo não é técnica nenhuma. É o pecado que eu escondo e de que eu gosto, a mágoa que eu guardo com nome e sobrenome, o ouvido que eu fecho para a Palavra e para quem está passando necessidade, e o pedido que existe só para me servir.

Nenhum dos quatro é segredo. Todos os quatro são coisas que você já sabe.

Perguntas para levar

Não responda por escrito. Só não passe por elas rápido demais.

  1. Tem alguma coisa na sua vida que se encaixa na imagem da gaveta — algo que você não quer largar, que você abre de vez em quando só para olhar?

  2. Você consegue dizer, agora, o nome da pessoa de quem você guarda alguma coisa? Se o nome veio rápido, ele já estava por perto.

  3. Quando foi a última vez que você pediu, por outra pessoa, alguma das coisas que Jesus pediu em João 17 — que ela seja guardada do mal, santificada na verdade, que esteja em unidade? Ou as nossas orações uns pelos outros só falam de circunstância?

  4. E a mais difícil: existe algum pedido seu que Deus já respondeu não, e que você continua tratando como silêncio? A diferença entre as duas coisas pode ser a diferença entre continuar esperando e começar a ouvir.

Referências

  • Bíblia Sagrada, Almeida Corrigida Fiel (ACF). Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil.
  • Salmo 66.18-20; Provérbios 21.13; 28.9; Isaías 58.6-9; 59.1-2; Jeremias 31.29-30; Ezequiel 18.2-4, 20; 37.1-12; Zacarias 7.11-13; Mateus 6.14-15; 7.23; Marcos 10.46-52; 11.22-25; Lucas 18.1-8; João 17; Atos 10.4; Romanos 4.17; 10.17; 2 Coríntios 12.7-10; Hebreus 5.7; 11.1-3; Tiago 4.3; 1 João 3.4; 5.14-15.
  • BROWN, F.; DRIVER, S. R.; BRIGGS, C. A. A Hebrew and English Lexicon of the Old Testament (verbetes de iniquidade, torcer, pecar e transgredir).
  • THAYER, J. H. Greek-English Lexicon of the New Testament.
  • Talmude da Babilônia, Yomá 36b.
  • NUNNALLY, W. E. The Sins of Generational Curse. Enrichment, v. 12, n. 4, outono de 2007, p. 114-120.
  • The Believer and Positive Confession. Declaração do Presbitério Geral das Assembleias de Deus, 19 de agosto de 1980.
  • DUFFIELD, Guy P.; VAN CLEAVE, Nathaniel M. Foundations of Pentecostal Theology.
  • TORREY, R. A. How to Pray, cap. IX, Hindrances to Prayer.
  • COPELAND, Kenneth. The Laws of Prosperity, p. 14-15.
  • CAPPS, Charles. God s Creative Power Will Work For You.
  • BANDA, Collium. Regenerated without being recreated? HTS Teologiese Studies, v. 76, n. 3, 2020.
  • MACCHIA, Frank D. The Prosperity Gospel: A Biblical Evaluation. Enrichment, inverno de 2015.
  • Declaração sobre o Evangelho da Prosperidade. Movimento de Lausanne, Acropong, 2009.
  • GEISLER, Norman; RHODES, Ron. When Cultists Ask.
  • MACGREGOR, Kirk. Journal of the International Society of Christian Apologetics, v. 2, n. 1, 2009.
  • KEIL, C. F.; DELITZSCH, F. Commentary on the Old Testament.
  • BARNES, Albert. Notes on the Bible.
  • HENRY, Matthew. Commentary on the Whole Bible.
  • NICOLL, W. R. (ed.). The Expositor s Greek Testament.

Receba os estudos por e-mail

Um aviso quando sai um estudo novo. Nada mais que isso.