A Bíblia manda conferir em livros que não existem mais
Números 21.14 · Josué 10.13 · 2 Samuel 1.18 · 08 de setembro de 2026
Em resumo
Em três passagens, o texto bíblico cita outra obra como fonte — uma delas com uma pergunta retórica que só faz sentido se o leitor tiver o livro à mão. Os dois livros indicados se perderam.
"O livro das guerras do Senhor"
Em Números 21, no meio de um itinerário geográfico seco, o texto abre aspas para uma obra que não faz parte da Bíblia:
Por isso se diz no livro das guerras do Senhor: O que fiz no Mar Vermelho e nos ribeiros de Arnom,
Ficou a citação; sumiu o livro. O trecho citado é o que sobrou dele — não temos mais nada dessa obra além do que este versículo preservou por acidente.
"O livro de Jasher", duas vezes
O segundo é citado em dois lugares distantes, e das duas vezes com naturalidade de quem indica uma referência conhecida.
Em Josué 10.13, depois do relato do sol detido, vem uma pergunta:
Isto não está escrito no livro de Jasher?
Por que a forma da pergunta importa
Uma pergunta retórica pressupõe que a resposta seja evidente para quem lê. Ao escrever "isto não está escrito no livro de Jasher?", o autor está supondo que o leitor tem, ou pode ter, acesso àquele livro. É a diferença entre citar uma fonte e apontar para uma prateleira que o leitor enxerga.
E em 2 Samuel 1.18, na abertura do lamento de Davi por Saul e Jônatas, a indicação reaparece em forma afirmativa: "Eis que está escrito no livro de Jasher".
O que sobra disso
Os autores bíblicos escreviam dentro de uma cultura de registro mais ampla do que o conjunto de textos que chegou até nós, e apontavam para fora dele sem nenhum constrangimento. O gesto é o mesmo que fazemos hoje ao escrever "ver tal obra": só que, nesses três casos, a obra indicada não pode mais ser aberta.