A altura de Golias é o único número dele que está em disputa

1 Samuel 17.4-7 · 1 Samuel 17.40 · 1 Samuel 17.49 · 08 de setembro de 2026

Em resumo

Todo mundo lembra que Golias era enorme, e a altura é a única coisa que o texto despacha em meia linha — e a única em que os manuscritos antigos discordam entre si. O que eles não disputam é o peso do equipamento, que o texto detalha peça por peça.

Meia linha para a altura

A estatura, que é a única coisa de que todo mundo se lembra, é despachada num inciso: um homem de Gate, "que tinha de altura seis côvados e um palmo" — algo perto de 2,97 m. E o texto segue adiante sem comentar.

E é justamente o número em disputa

O único número da descrição de Golias que os manuscritos antigos não confirmam entre si é o da altura.

"Seis côvados e um palmo" (~2,97 m) é a leitura do Texto Massorético hebraico — a base da maioria das Bíblias em português — e também da Vulgata latina, da Peshitta síriaca e do Targum aramaico.

"Quatro côvados e um palmo" (~2,06 m) é a leitura de 4QSamª, um manuscrito da comunidade de Qumran; do Códice Vaticano e da recensão Luciânica da Septuaginta grega; e de Flávio Josefo, nas Antiguidades Judaicas 6.171.

O peso do argumento vem da cronologia. 4QSamª é a cópia hebraica mais antiga que se conhece desse trecho de Samuel, datada de cerca de 50 a.C. — bem anterior ao Texto Massorético, que só se consolida por volta do século X d.C. Como esse manuscrito de Qumran concorda com a Septuaginta contra o Massorético, e como os textos paralelos de 1 Crônicas também seguem a leitura menor quando divergem, boa parte da crítica textual hoje considera "quatro côvados" a leitura mais próxima do original.

A ressalva, que também é parte da curiosidade

Não é consenso. 4QSamª está muito fragmentado — só cerca de 20% do texto de 1 Samuel 17.1-4 está de fato preservado nele, e o restante é reconstrução. E Alexander Rofé propôs que esse rolo funciona mais como comentário (midrash) do que como cópia fiel do texto bíblico, o que enfraquece seu peso como testemunha. Quem quiser o estado da questão em detalhe: Benjamin J. M. Johnson, Vetus Testamentum 62 (2012), p. 534-549.

Muitas Bíblias de estudo em inglês registram isso em nota de rodapé no próprio 1 Samuel 17.4 — a ESV diz "Hebrew; Septuagint, Dead Sea Scroll and Josephus [read] four". A maioria das traduções em português não traz essa nota e segue direto o Massorético.

O que ninguém disputa é o peso

Curiosamente, o resto da apresentação de Golias — que é muito mais extensa que a altura — não carrega divergência nenhuma. E é uma lista de compras, com números:

Trazia na cabeça um capacete de bronze, e vestia uma couraça de escamas; e era o peso da couraça de cinco mil siclos de bronze.

E trazia grevas de bronze por cima de seus pés, e um escudo de bronze entre os seus ombros.

E a haste da sua lança era como o eixo do tecelão, e a ponta da sua lança de seiscentos siclos de ferro, e diante dele ia o escudeiro.

Bronze em tudo — capacete, couraça, grevas, escudo — e ferro só na ponta da lança. A haste é comparada a uma peça de tear, que é a medida que um leitor daquele tempo tinha em casa. E o inventário termina com um detalhe que não é equipamento: alguém andava na frente carregando o escudo.

Do outro lado, ninguém pesa nada

Quando Davi se prepara, o texto muda de registro. Some o peso, entra a contagem miúda:

E tomou o seu cajado na mão, e escolheu para si cinco seixos do ribeiro, e pô-los no alforje de pastor, que trazia, a saber, no surrão, e lançou mão da sua funda; e foi aproximando-se do filisteu.

Um lado é medido em siclos. O outro é medido em cinco pedras de ribeiro.

E o desfecho volta ao inventário sem avisar. A funda acerta o filisteu na testa, e a pedra "se lhe encravou na testa". O texto não comenta a ironia — só tinha registrado, quarenta e cinco versículos antes, que ele trazia na cabeça um capacete de bronze.

Referências

  • Benjamin J. M. Johnson, "Reconsidering 4QSamª and the Textual Support for the Long and Short Versions of the David and Goliath Story", Vetus Testamentum 62 (2012), p. 534-549
  • Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 6.171
  • Alexander Rofé, sobre o caráter do rolo 4QSamª

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